Que tipo de criança teria problemas em ver mochilas revistadas por militares?

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Na coluna Painel do Leitor, da Folha, uma mulher chamada Fabiana Tambellini, de São Paulo, escreveu o seguinte:

“Fiquei chocada com a fotografia da primeira página da Folha, desta quarta-feira (21), mostrando militares armados inspecionando mochilas de crianças [na zona norte do Rio de Janeiro]. É injustificável.”

Outro leitor, de Belo Horizonte, disse:

“Qual lição aquelas crianças de olhar assustado, tendo suas mochilas reviradas por militares munidos de fuzis, aprenderam? Que para os ricos a Constituição e suas garantias sempre valem e que para os pobres —ou seus defensores— sobram a truculência e a injustiça. Imaginem se isso aconteceria em um colégio de classe alta.”

Embora seja difícil conviver com uma situação na qual crianças são expostas à violência, é questionável a indignação dos dois leitores. Por que eles estão indignados com a revista feita pelos militares se, na realidade, deveriam se indignar com o fato de que bandidos usam estas crianças para cometerem os seus crimes?

Em favelas é bastante comum que os criminosos aliciem menores de idade, muitos deles ainda em fase muito jovem, para transportar drogas ou armas em mochilas. É também muito comum que estas crianças sejam usadas dentro do próprio sistema do tráfico, como aviõezinhos ou fogueteiros.

É como se os dois leitores estivessem reclamando da investigação e não do crime. É como se um pai alcoólatra mandasse seu filho de dez anos trabalhar pedindo dinheiro no semáforo para comprar suas bebidas, e os dois se indignassem com o assistente social que tenta de alguma forma tirar a criança daquela vida.

Não houve violência por parte dos militares, eles só revistaram mochilas. As “crianças de olhar assustado” na realidade não estão assustadas, elas vivem em favelas, lugares em que ocorrem tiroteios em plena luz do dia cotidianamente.